E então eu a vi acordar.
Quem sabe ela acordou só para poder sonhar? Mas só ficou nítido o longo bocejar enquanto ela se espreguiçava.
Um banho com os olhos fechados a levou para dez mil quilômetros daqui. Ora, não se pode fugir disso.
A angústia rasga a carne quando entra no ônibus lotado em direção ao trabalho.
Do alto daquele nono andar, ela viu muitos anos se passarem. Uns bons, outros piores. Nenhum como ela planejou.
Já não era sem tempo, talvez ela não quisesse voltar para casa. Mas não tinha lugar melhor que a seu quarto. A madrugada era iluminada pelo azul fosco da tevê ligada. Apenas para lhe fazer presença naquele pequeno quarto. Eu ouvi os gritos...os gritos aterrorizados de seus pulmões tentando se encher de ar. Talvez pela última vez.
Os comprimidos sem prescrição médica descem por sua garganta dissolvendo-se junto ao gole de whisky barato.
Agora ela podia sentir. Sentia-se viva, como jamais pode sentir. Seus músculos se contraiam descontroladamente. Suas artérias estavam dilatadas, fazendo as substâncias circularem através de sua corrente sanguínea em uma velocidade incalculável. Sentiu as pálpebras pesarem.
Agora não há mais volta.
Ela pode testemunhar seu último suspiro. Sua alma por tanto tempo enegrecida, já não mais habitava aquela massa debruçada por sobre a cama, que a muito tempo não se via arrumada.
Quem eu sou? Eu sou o desespero, a angústia, o descontrole. Eu sou o perigo e o grave. O desfoque do medo. Eu assolei seus sonhos por tanto tempo. Eu estendi minhas mãos para que ela pudesse me seguir. Eu a trouxe para cá.
Agora acabou.
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